
Em Punta-del-Est, há cerca de dois anos, conheci um português. Antônio. Me dizia sempre o gajo, Vai calçar-te, mulata, pois eu vivia descalça, pés na areia, ou na fria cerâmica do albergue. Nunca me apeteceu sapato. E a ele, que eu andasse descalça.
- Ponha o sapata, negrinha.
- Vista-te os pés, morena.
- Calça-te, rapariga.
Não me perturbava, nem causava desassossego, mas me intrigava um pouco. O que tinha o tal com os meus pés descalços? Outras palavras não se trocavam entre nós que não sobre isso.
Lembrava de Bentinho, Dom Casmurro, que, ao liberar seu escravo, dá a ele um par de sapatos.
Ontem lia Mia Couto (Vinte e Zinco, 1999, Lisboa, Editorial Cominho)
“O sapato, nesse mundo, não é só coisa de pôr e tirar. O dito sapato não compõe apenas o pé mas concede eminência ao homem todo inteiro. O calçado é um passaporte para ser reconhecido pelso brancos, entrar na categoria dos assimilados*.
Vanglorio-me, agora que entendo, da minha descalcidão.
* Assimilado, do glossário de Mia Couto: categoria do regime colonial que privilegiava negros que assimilavam a cultura portuguesa.
1 comentários:
Por que será que o rapaz se incomodava tanto com os seus sapatos? Porque eu não consigo pensar numa coisa mais bonita que uma mulata fagueira com cara de menina sapeca, e ainda por cima de pés descalços na areia...
;o)
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