
Mas escrever é assim como um impulso. De repente, sai. Ou começa. E não para mais. Vai indo até chegar no ponto final, até achar que já disse tudo, ou que se disser mais, vai estragar. Estragar o texto, a geografia das palavras. Estragar a poesia.
Escrever sempre foi assim. Construir com palavras. Palavras escolhidas para a combinação mais bonita entre som e significado. Entre contexto, entrelinhas e mensagem. Cheguei a pensar que só a tristeza me traria esse impulso: sadness, sorrow and suffering were the real nourriture, the substantial muses a impulsionar o ato, a criar a necessidade e a ser, até mesmo, a própria necessidade a querer sair, se expulgar.
Enganei-me. Não é assim.
Pensei que fosse a vida a matéria principal do ato de escrever. Não. Ou a intensidade da experiência vivida. Também não. Por esse tempo todo de silêncio, tenho vivido. Intensamente. Em plena variedade, uma enorme gama de sensações, emoções e vivências: de angustia e tristeza profunda à plena felicidade, êxtase, alegria gargalhante, sem deixar de passar por contemplação, silêncio, solidão, solitude, tédio e apatia. Até paixão, e amor consolidado, ciúmes e traição. Tudo. Do grande ao pequeno, do cinza ao cor de rosa.
Oito meses que não escrevo. E não escrevo por que acho que deixei de pensar em palavras. Tudo foi e tem sido tanto que não me vêm as descrições. Palavras faltam. Ou não descrevem. Velho dilema. Diz-me Saramago que isso “é assim, salvo seja, como uma invalidez da linguagem, não é querer dizer amor e não chegar a língua, é ter língua e não chegar ao amor.”
So, not being able to write, I quote.
Pelo menos voltei aos livros – ler ainda sou capaz...
4 comentários:
É, eu também tenho uma concepção parecida da escrita. Escrever enquanto vômito. É algo que te transborda.
Mas às vezes a vida nos deixa tão apáticos... que desenvolvemos uma capacidade quasirrestrita de digerir.
Nos tornamos seres amebóides, fagocitando ao contato.
Mas no sei caso eu não me preocuparia, escrever sobre não ser capaz de escrever já é escrever.
Love,
Carlos.
Ei! Que bom descobrir que você voltou ao seu blogue, e ainda mais citando Saramago, que sempre vale o ingresso... Só lamentando esse tonzinho melancólico, de quem tá escrevendo por necessidade de compensar alguma trsitezazinha, quem sabe? Beijos!
Naaaaoooo!!!
Eu tambem nao escrevo mais com tanta frequencia, parece que a vontade maior so vem com a tristeza mesmo, mas vez ou outra deixo umas palavras soltas pelo blog..
Faça isso, nao abandone, apareça as vezes, tenho certeza que vc vai alegrar muita gente!
Lov u.
eu juro q tentei comentar aqui, mas sinto muita falta de privacidade. por email, sinto muita distância. acho q vou esperar um encontro mesmo. digo fisico, pq os outros, né? o tempo todo, aih.
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