Nasceu num dia de chuva. Chuva torrencial.
Não chorou, choraram por ele.
Olhou o mundo como um lugar conhecido, mas de outro ângulo.
Não achou graça. Suspirou, e dormiu.
Acordava quando sentia fome. Mas não chorava. Esperava.
Quando chegou a hora, andou. Sem ter antes feito o esforço de engatinhar.
E de então, nada mais pediu.
Aprendeu a ler cedo.
E lia. Muito.
Mas não falava.
Não tinha esse dom.
Um dia, fez um desenho.
Não gostou da experiência.
Escreveu uma frase.
Achou que já tinha sido escrita.
Nunca olhou para o céu.
Não viu a lua, e o sol sentia apenas pela claridade do dia.
Quando chovia, sentia-se incomodamente entediado.
Não teve doenças, nem grandes alegrias.
Não ficou bêbado, não usou drogas.
Não dançou.
Não conheceu o mar e nunca nadou pelado em uma cachoeira.
Nunca sentiu o gosto e o prazer de um beijo.
Não sofreu por amor.
Passou pela vida sem amar.
Em suma, não viveu.
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