Dec 26, 2007

O tempo de uma viagem

Nosso amor foi uma viagem.
O tempo de uma viagem.
Mal nos olhamos até que nossos cotovelos se tocassem, mas assim que isso aconteceu, parece que o mundo se abriu e fez lugar para que a nossa história acontecesse.
Ele lia um livro em inglês, e fazia cara de pseudo-intelectual. Eu folheava minha Carta Capital de duas semanas atrás. Os olhos pesavam de sono...

Não sei por que ele resolveu falar comigo. Ou eu com ele. Sei que nos falamos. E falamos tanto que deu vontade de falar mais. E ele pediu meu número e apesar do pouco tempo de minha estadia na cidade, foi me ver. E a história cresceu, e ele era divertido, e falava outras línguas e gostava de cinema, drogas e rock n’ roll.
Namoramos um tempo, e curtimos um tanto. Viajamos pra Europa e pra Amsterdã. Passamos Natal em Curitiba e Reveillon em Buenos Aires. Decidimos morar juntos, e eu fiquei grávida. Fizemos uma pequena celebração, só para as famílias. Nossos pais, mães e padrastos, e muitos irmãos. Na festa, minha irmã e o irmão mais velho dele caíram de amores.
Lua-de-mel em Bonito. Ou em Bali, não conseguíamos decidir. Fomos pra Santiago. Depois que a Aninha nasceu. Dois anos depois. E voltei grávida.
Fomos morar fora, fizemos mais um filho, adotamos mais outro. Voltamos pro Brasil. Compramos uma casa na praia e um cachorro para as crianças. Ele escreveu um livro. Ganhou dinheiro com a internet. Fomos de novo morar fora. E fizemos outro filho. Em casa, escrevi um livro. Voltamos para o Brasil. Largamos as crianças com a vó, na casa de praia, e fomos tirar férias da família. Descobrimos um mundo dentro da gente.
E quando voltamos, o ônibus parava na rodoviária.
Nossos cotovelos se desencostaram e eu voltei pro mundo real.
Ele levantou, ainda portando a cara de pseudo-intelectual, e sem dizer palavra, se foi.
E eu fiquei.
O tempo de uma viagem durou o nosso amor.

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