Nov 27, 2007

O Passado...

Pra mim, uma das coisas mais difíceis de qualquer relacionamento são as negociações.
Como as negociações me família para se decidir aonde vai ser o almoço, ou a festa de natal.
E, no relacionamento a dois, esse processo fica mais doloroso por que tem que acontecer quase que a cada passo. Pequenas negociações, como a posição para dormir, ou que filme ver, que são em si gostosas quando feitas em parceria. E negociações maiores como ir ou não a uma festa, um almoço de família, ao bar com os amigos, ou que se pode fazer só e o que não se pode fazer só. O que tem que ser dito e o que não importa tanto assim. O que é importante para o outro, apesar de não ser pra mim. E o que é importante pra mim, e que eu preciso mostrar que é importante.


Eu gosto muito de cinema. E não me importo de ir sozinha. Até curto, de uma maneira diferente.

Mas isso já rendeu um tanto, e um tanto tão desproporcional em um namoro passado, que, ontem me dei conta, causou danos. E que só percebo agora, por que trilho o caminho de abrir o coração.

Então ontem fui ao cinema. Sozinha. Fui ver O Passado, que eu já tinha tentado ir ver algumas vezes e nunca achava companhia.

E no meio da sessão, menino me ligou. E meu coração disparou. Felicidade? Não. Medo.
Respondi com uma mensagem. Já te ligo.

O medo entra no meio do caminho da razão.

No filme tem uma mulher bem louca. E eu suava frio, e meu medo herdado se misturava ao medo de ser louca daquele jeito, e eu torcia pro filme acabar, pra que eu pudesse ligar de volta pro menino, pra que ele não ficasse pensando coisas, e que coisas são essas que ele pensaria eu não sei, mas pensava o outro e me brigava e falava um tanto que eu não era confiável que não era possível e o que que eu tinha e onde estava e com quem e por que não atendi o telefone e como assim cinema sem avisar, e que quem é que vai ao cinema sozinha que eu tinha que parar com essa história e quem é que estava comigo e que ele ia me buscar pra eu dizer logo onde estava e eu não respirava mais, mas o coração batia, e eu pensava e via o filme e a louca da tela era a louca da platéia...Mas eu não conseguia sair da cadeira e ir lá fora ligar. Nem pensei uma única vez em complementar a mensagem. Estou no cinema. Saio às 10. O medo embota o cérebro.

Era tão grande o medo, tão do tamanho que se tornava um simples cinema no final da tarde, que desencadeava tamanhas negociações de conduta e acusações e culpas e desconfianças e promessas vãs e pedidos de desculpas, e quanto mais eu pensava nisso, com mais medo eu ficava. E quanto mais medo, menos via o menino e só enxergava o outro.

Até que o filme acabou. 40 minutos depois da ligação. E eu liguei de volta. E a voz do outro lado da linha era a mais doce e serena, a mais tranqüila e amorosa. Nenhuma pergunta. Nenhuma incerteza. E pediu pra me ver. Em quinze minutos estarei em casa.
E o medo? Nada de ir embora. Ficou comigo na imensa fila pra pagar o estacionamento, no longo trajeto para o carro ( e os quinze minutos se esvaindo...) na fila pra sair do estacionamento, no caminho escuro e esburacado para casa, na espera para que se abrisse o portão da garagem... e foram-se 18 minutos até que o telefone de novo tocasse.

- Tá em casa?
- Acabei de chegar. (medo)
- Mas as luzes estão todas apagadas... (pânico! Ele não acredita que eu estou aqui!)
- Acabei de chegar, estou subindo ainda.
- Tá, te encontro lá em cima.

E foi isso. Me olhou nos olhos, como sempre faz, segurando meu rosto com as duas mãos, e me beijou, como se a menina fosse eu. Disse Bom dia, minha linda! Ainda que noite fosse. Abriu a porta pra mim, e me agarrou na escada, num rompante desse tesão que os homens chamam paixão. Um beijo tórrido, roubado. E o medo. E a desconfiança de que tudo estava por demais tranqüilo, por demais normal, por demais gostoso demais...

Subimos, e os olhos foram tratando de aplacar o coração.
De repente me dei conta que ainda me relacionava com o outro. E que esse era o menino, e não mais o outro. E que o outro tinha deixado marcas profundas na minha alma...

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