E escrevi:
“Parei de escrever. E isso me angustia. As palavras, recentemente, só me saem em línguas estrangeiras, ou por deveras formais, salvo as cartas para minha mãe, ainda escritas como antigamente. São sempre Would you be so kind. Je vous prie de bien me faire parvenir. Sincerely yours, Mes meilleures salutations. Business cliché, para combinar as duas línguas que me dominam.”
Tento seguir. Cartas que troco com minha mãe, desde tempos há muito idos, por que estávamos sempre ocasionalmente distantes. Mamãe achou umas cartas antigas, minhas, e me-as mandou. São do tempo em que eu fazia faculdade, 13 anos atrás. Antes mesmo de Londres, Letras, Línguas e tantas outras andanças. Um tempo em que a jornada era quadrupla – três empregos mais faculdade – um tempo em que eu dizia “não quero relações sérias por um certo tempo. Essas histórias de coração às vezes cansam, apesar de que – tenho que admitir, preciso delas.” (Yes, I have changed, but I am still the same...)” - era a época em que eu vivia a relação que acreditei ser “o amor de minha vida” (sem saber que o amor da vida é aquele que a gente se propõe a amar). Dizia eu que era uma fase de transição – não são todas? Fases pelas quais transito, às vezes só, às vezes mal acompanhada, às vezes só acompanhada, mas sempre aprendendo a jogar.
Na época eu descobria como minhas paixões aquelas que nunca canso de descobrir: cinema, literatura, línguas, imagens e costumes (eu sempre acho que isso tudo é novidade, sempre). Digo à mãe que quero ir morar na Espanha, só por que eles trabalham de 10 às 14, param durante 3 horas para o almoço, retornam às 17, trabalham até às 20, descansam um pouquinho e baladam até mais de madrugadinha, sem a preocupação de acordar às 7 no dia seguinte. E essa semana leio, na aula de francês, que o governo espanhol se esforça para se adequar à work week estilo mundo capitalista moderno. Motivo? Não entendi muito bem... Acho que nem tentei... Os espanhóis é que são felizes...
Na época, ainda “adolescente”, eu queria viver tudoaomesmotempoagora. Elocubrava, viajante: “Fico pensando como é limitado viver só o aqui (grifo nosso), sem saber que outras possibilidades existem.” (quem eu era essa?)
O que segue é uma viagem alucinógena de uma mente que não usava drogas (sempre fui meio caretinha, apesar de fazer o tipo “descolada”). Me desnudo? La vai:
“Fico puta com a castração que é a vida moderna num país desenvolvido. Se é que se pode chamar isso de vida. Subdesenvolve-se num país sobrevivido.A vida passa a ser IMAGINADA. Imagem e nada. Imagens da vida. Imagina? Para alguns, a imagem da pobreza – a que incomoda, que é nojenta, não faz parte do meu mundo. Imagino. Para outros alguns a imagem inalcançável, a promessa do descanso que essa imagem faz: a vida. O mundo. Qual mundo? O mundo da TV? Imagens. A imagem de dentro do carro, de dentro da janela. A imagem da cara feia, da cara de medo, do ser igual-diferente..”.
(Nossa... )
Eu tinha 21 anos. E acreditava que a esquerda existia para mudar o sistema, e não sucumbir ao poder.