Oct 15, 2009

Two English Poems

   I
   
   The useless dawn finds me in a deserted street-
      corner; I have outlived the night.
   Nights are proud waves; darkblue topheavy waves
      laden with all the hues of deep spoil, laden with
      things unlikely and desirable.
   Nights have a habit of mysterious gifts and refusals,
      of things half given away, half withheld,
      of joys with a dark hemisphere. Nights act
      that way, I tell you.
   The surge, that night, left me the customary shreds
      and odd ends: some hated friends to chat
      with, music for dreams, and the smoking of
      bitter ashes.  The things my hungry heart
      has no use for.
   The big wave brought you.
   Words, any words, your laughter; and you so lazily
      and incessantly beautiful.  We talked and you
      have forgotten the words.
   The shattering dawn finds me in a deserted street
      of my city.
   Your profile turned away, the sounds that go to
      make your name, the lilt of your laughter:
      these are the illustrious toys you have left me.
   I turn them over in the dawn, I lose them, I find
      them; I tell them to the few stray dogs and
      to the few stray stars of the dawn.
   Your dark rich life ... 
   I must get at you, somehow; I put away those 
      illustrious toys you have left me, I want your
      hidden look, your real smile -- that lonely,
      mocking smile your cool mirror knows.
   
                       II
   
   What can I hold you with?
   I offer you lean streets, desperate sunsets, the
      moon of the jagged suburbs.
   I offer you the bitterness of a man who has looked
      long and long at the lonely moon.
   I offer you my ancestors, my dead men, the ghosts
      that living men have honoured in bronze:
      my father's father killed in the frontier of
      Buenos Aires, two bullets through his lungs,
      bearded and dead, wrapped by his soldiers in
      the hide of a cow; my mother's grandfather
      --just twentyfour-- heading a charge of
      three hundred men in Peru, now ghosts on
      vanished horses.
   I offer you whatever insight my books may hold, 
      whatever manliness or humour my life.
   I offer you the loyalty of a man who has never
      been loyal.
   I offer you that kernel of myself that I have saved,
      somehow --the central heart that deals not
      in words, traffics not with dreams, and is
      untouched by time, by joy, by adversities.
   I offer you the memory of a yellow rose seen at
      sunset, years before you were born.
   I offer you explanations of yourself, theories about
      yourself, authentic and surprising news of 
      yourself.
   I can give you my loneliness, my darkness, the
      hunger of my heart; I am trying to bribe you 
      with uncertainty, with danger, with defeat.
   
   
                     - Jorge Luis Borges (1934)

Oct 6, 2009

La pluie

Hoje alguém falou comigo.

Caminhava para o trabalho, marcando o tempo, preocupada em chegar na hora. Mesmo assim, crianças me prendem a atenção. E há um pátio, de uma escola, no meio do meu caminho. Ë ali que invariavelmente minha mente me escapa. No meio das crianças, correndo de um lado para o outro, sem muito propósito ou objetivo definido.

Hoje não foi diferente. Mas, quase cruzando o portão, onde as crianças ficaram pra trás e a mente quase tinha voltado ao seu formato quadrado digitalizado do relógio do celular, sinto alguém puxar meu casaco.

Anna Lee. Mas ela não me diz seu nome de primeira. Me pergunta, em seu francês perfeito numa voz deliciosamente infantil, me tutoyando como se fossemos iguais, tu vas ou?

Et je dois la dire, Je dois aller au bureauE ela me diz que fica na escola, pois ainda tem que brincar. Eu sorrio, enquanto ela me conta que o pequeno bosque no meio do pátio está alagado e corrige a minha pronuncia, quando digo que é por causa da chuva – la pluie. Digo que seus olhos são da cor do céu, e que o céu está triste, pois hoje o sol não veio visitá-lo. Ela me olha, com aquela carinha de crianças, e imagino que ela pensa: você realmente não conhece o Sol, né?

Ela então me diz que se chama Ana. E eu digo que me chamo Luana. Digo tchau e me viro, pra seguir meu caminho. Mas me chama, a Ana, na sua voz segura de 5 anos de idade. Me chama pelo nome. Luana, eu tenho um cavalo – j’ai un cheval! Meu coração se alegra numa intensidade sem sentido! Troca comigo segredos imaginários uma pequena princesa que apenas me viu! Quanta honra! Que méritos tenho pra ser guardiã de tamanho tesouro, ou mesmo presenteada com tanta honra? Je la demande si c’est un cheval marron, comme mon manteau, ou noir. E ela me diz, sem hesitar. Noir ! Penso comigo: cavalos negros são mesmo muito mais bonitos...

Não consigo me despedir, seguir meu caminho. Espero ela virar, me dar as costas e voltar ao seu mundo, muito mais encantado. Minha mente se desligou. Não sabe mais voltar ao formato quadrado, em números digitais. quer saber de conhecer o sol e brincar com cavalos negros...

Aug 12, 2009

Pés descalços

Em Punta-del-Est, há cerca de dois anos, conheci um português. Antônio. Me dizia sempre o gajo, Vai calçar-te, mulata, pois eu vivia descalça, pés na areia, ou na fria cerâmica do albergue. Nunca me apeteceu sapato. E a ele, que eu andasse descalça.

- Ponha o sapata, negrinha.

- Vista-te os pés, morena.

- Calça-te, rapariga.

Não me perturbava, nem causava desassossego, mas me intrigava um pouco. O que tinha o tal com os meus pés descalços? Outras palavras não se trocavam entre nós que não sobre isso.

Lembrava de Bentinho, Dom Casmurro, que, ao liberar seu escravo, dá a ele um par de sapatos.

Ontem lia Mia Couto (Vinte e Zinco, 1999, Lisboa, Editorial Cominho)

“O sapato, nesse mundo, não é coisa de pôr e tirar. O dito sapato não compõe apenas o mas concede eminência ao homem todo inteiro. O calçado é um passaporte para ser reconhecido pelso brancos, entrar na categoria dos assimilados*.

Vanglorio-me, agora que entendo, da minha descalcidão.

* Assimilado, do glossário de Mia Couto: categoria do regime colonial que privilegiava negros que assimilavam a cultura portuguesa.

Cenas de Genebra

Um casal de meia idade no ônibus.

Estão de mãos dadas.

De repente, ela diz, clma, como se falasse da chuva:

- Ya no me entiendes...

- Ya no te explicas!

- ¿Por eso nos calamos?

- Al menos estamos juntos.

E o silêncio volta a reinar entre eles. Comfortable silence.

Jul 23, 2009

Faz diferença, a ordem das coisas?

Por que é que alguns dias me apraz a idéia de caminhar para o trabalho e outros nem da cama quero sair?

Por que de repente me assola a vontade de cozinhar se tantas outras vezes nem de comer tenho vontade?

Às vezes quero calça, muitas nem me calçar.


Anseio pelo sol, mal posso esperar que o dia acabe.

Tem dias que sou rua. Outros que ando nua.

Uns dias, lágrimas. Ainda no mesmo, risos.

Preto, branco, azul, violeta.

Por que tanto de quero em alguns momentos, e em outros teu cheiro me angustia?

Água, vinho, coca-cola. Uma Constancia: Zero.

Tantas e tantas, não sei. Não sei se quero, não sei se vou. Não sei se é certo, ou se é assim. Não sei se me aquieto ou se nada faço. Não sei se espero ou se desespero.

O tempo todo, não sei por quê.

Por que é que alguns dias me apraz a idéia de caminhar para o trabalho e outros nem da cama quero sair?

Por que de repente me assola a vontade de cozinhar se tantas outras vezes nem de comer tenho vontade?

Por que tanto de quero em alguns momentos, e em outros teu cheiro me angustia?

Pela manhã, anseio pelo sol; à noite, mal posso esperar que o dia acabe.

Tem dias que sou rua. Outros que ando nua.

Às vezes quero calça; muitas, nem me calçar.

Uns dias, lágrimas. Ainda no mesmo, risos.

Preto, branco, azul, violeta.

Água, vinho, coca-cola. Uma Constância: Zero.

Tantas e tantas, não sei.

Não sei se quero, não sei se vou. Não sei se é certo, ou se é assim. Não sei se me aquieto ou se faço algo. Não sei se espero ou se desespero.

O tempo todo, não sei porque.

May 29, 2009

Comecei

escrevi:

“Parei de escrever. E isso me angustia. As palavras, recentemente, me saem em línguas estrangeiras, ou por deveras formais, salvo as cartas para minha mãe, ainda escritas como antigamenteSão sempre Would you be so kind. Je vous prie de bien me faire parvenir. Sincerely yours, Mes meilleures salutations. Business cliché, para combinar as duas línguas que me dominam.”

 

Tento seguir. Cartas que troco com minha mãe, desde temposmuito idos, por que estávamos sempre ocasionalmente distantes. Mamãe achou umas cartas antigas, minhas, e me-as mandou. São do tempo em que eu fazia faculdade, 13 anos atrás. Antes mesmo de Londres, Letras, Línguas e tantas outras andanças. Um tempo em que a jornada era quadrupla – três empregos mais faculdadeum tempo em que eu dizia “não quero relações rias por  um certo tempo. Essas histórias de coração às vezes cansam, apesar de que – tenho que admitir, preciso delas.” (Yes, I have changed, but I am still the same...)”  - era a época em que eu vivia a relação que acreditei ser “o amor de minha vida” (sem saber que o amor da vida é aquele que a gente se propõe a amar). Dizia eu que era uma fase de transiçãonão são todas? Fases pelas quais transito, às vezes , às vezes mal acompanhada, às vezes acompanhada, mas sempre aprendendo a jogar.

 

Na época eu descobria como minhas paixões aquelas que nunca canso de descobrir: cinema, literatura, línguas, imagens e costumes (eu sempre acho que isso tudo é novidade, sempre). Digo à mãe que quero ir morar na Espanha, por que eles trabalham de 10 às 14, param durante 3 horas para o almoço, retornam às 17, trabalham até às 20, descansam um pouquinho e baladam até mais de madrugadinha, sem a preocupação de acordar às 7 no dia seguinte. E essa semana leio, na aula de francês, que o governo espanhol se esforça para se adequar à work week estilo mundo capitalista moderno. Motivo? Não entendi muito bem... Acho que nem tentei... Os espanhóis é que são felizes...

 

Na época, aindaadolescente”, eu queria viver tudoaomesmotempoagora. Elocubrava, viajante: “Fico pensando como é limitado viver o aqui (grifo nosso), sem saber que outras possibilidades existem.” (quem eu era essa?)

 

O que segue é uma viagem alucinógena de uma mente que não usava drogas (sempre fui meio caretinha, apesar de fazer o tipo “descolada”). Me desnudo? La vai:

 “Fico puta com a castração que é a vida moderna num país desenvolvido. Se é que se pode chamar isso de vida. Subdesenvolve-se num país sobrevivido.A vida passa a ser IMAGINADA. Imagem e nada. Imagens da vida. Imagina? Para alguns, a imagem da pobreza – a que incomoda, que é nojenta, não faz parte do meu mundo. Imagino. Para outros alguns a imagem inalcançável, a  promessa  do descanso que essa imagem faz: a vida. O mundo. Qual mundo? O mundo da TV? Imagens. A imagem de dentro do carro, de dentro da janela. A imagem da cara feia, da cara de medo, do ser igual-diferente..”.

 

(Nossa... )

Eu tinha 21 anos. E acreditava que a esquerda existia para mudar o sistema, e não sucumbir ao poder

May 25, 2009

Por impulso

Mas escrever é assim como um impulso. De repente, sai. Ou começa. E não para mais. Vai indo até chegar no ponto final, até achar que disse tudo, ou que se disser mais, vai estragar. Estragar o texto, a geografia das palavras. Estragar a poesia.

Escrever sempre foi assim. Construir com palavras. Palavras escolhidas para a combinação mais bonita entre som e significado. Entre contexto, entrelinhas e mensagem. Cheguei a pensar que a tristeza me traria esse impulso: sadness, sorrow and suffering were the real nourriture, the substantial muses a impulsionar o ato, a criar a necessidade e a ser, até mesmo, a própria necessidade a querer sair, se expulgar.

Enganei-me. Não é assim.

Pensei que fosse a vida a matéria principal do ato de escrever. Não. Ou a intensidade da experiência vivida. Também não. Por esse tempo todo de silêncio, tenho vivido. Intensamente. Em plena variedade, uma enorme gama de sensações, emoções e vivências: de angustia e tristeza profunda à plena felicidade, êxtase, alegria gargalhante, sem deixar de passar por contemplação, silêncio, solidão, solitude, tédio e apatia. Até paixão, e amor consolidado, ciúmes e traição. Tudo. Do grande ao pequeno, do cinza ao cor de rosa.

Oito meses que não escrevo. E não escrevo por que acho que deixei de pensar em palavras. Tudo foi e tem sido tanto que não me vêm as descrições. Palavras faltam. Ou não descrevem. Velho dilema. Diz-me Saramago que isso “é assim, salvo seja, como uma invalidez da linguagem, não é querer dizer amor e não chegar a língua, é ter língua e não chegar ao amor.”

So, not being able to write, I quote.

Pelo menos voltei aos livrosler ainda sou capaz...